Como construir um portfólio odontológico que realmente abre portas: guia de quem os avalia
Francisco
Periodontista

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Como construir um portfólio odontológico que realmente abre portas: guia de quem os avalia
Em aprendizado de máquina, falamos de “features” — variáveis que determinam se um algoritmo prevê sucesso ou fracasso. Quanto mais preditiva a feature, maior o peso no modelo.
Depois de três décadas na odontologia, e agora do outro lado da mesa revisando candidatos, concluí: se candidatar a um emprego fosse um projeto de machine learning, sua presença online seria sua melhor feature.
Não é o GPA. Nem só a habilidade clínica (embora importe muito). Sua presença profissional visível, documentada e encontrável é o que separa os candidatos que eu lembro dos que eu esqueço.
Falo sério. Sem exagero.
Vou explicar por quê e, principalmente, como construir um portfólio odontológico que realmente funciona — de alguém que começou codando HTML em Barcelona para compartilhar casos clínicos e acabou como diretor executivo na Foundation for Oral Rehabilitation.
A origem que você não esperava
Em Barcelona, durante o mestrado em Implantodontia e Cirurgia Oral, tive um insight que mudou tudo.
Eu acumulava casos desafiadores: implantes complexos, protocolos de regeneração óssea, situações que me ensinavam algo novo. Pensei: é uma pena criar tudo isso e não fazer nada com o material.
Era o início de Facebook e Twitter. Redes sociais engatinhavam. Tive uma ideia maluca: e se eu criasse um site para documentar casos e explicar a ciência por trás das decisões clínicas?
Aprendi HTML e CSS. Criei o franciscobarbosaimplantology.com (nome terrível, eu sei). Mas veja: esse primeiro passo “ruim” fez tudo começar.
Depois veio o Periospot. Depois o MBA (mérito da minha esposa, que disse que eu “não era muito bom em gerir um negócio” — e ela estava certa). Vieram 20k+ inscritos, ebooks com 6k downloads em uma semana, convites para palestras internacionais e, por fim, a posição na FOR.
“Não é fazer da noite para o dia, mas passo a passo e crescendo sempre. No fim, você acumula um grande volume de conteúdo que te posiciona como marca.”
O portfólio em franciscodds.framer.ai não aconteceu de repente. É o resultado de 10+ anos de acúmulo — um caso, um artigo, uma apresentação de cada vez.
O que vejo ao revisar candidatos (e por que muitos portfólios falham)

Hoje, no mundo corporativo odontológico, reviso candidatos querendo migrar do consultório para a indústria. Vejo os mesmos problemas:
Problema 1: o CV “por favor me rejeite”
Currículos tão vazios e genéricos que parecem feitos para serem recusados. Modelos copiados, nada que mostre quem a pessoa é. Sem personalidade, sem feitos, apenas… fatos que serviriam para qualquer um.
Problema 2: gente brilhante, presença digital zero
Isso parte meu coração. Já entrevistei candidatos com habilidades clínicas incríveis, currículo sólido, ótima comunicação pessoal — mas quando pesquiso online? Sombra total.
Nada. Sem artigos, sem casos documentados, LinkedIn básico, nenhuma evidência de contribuição para a profissão.
“Só o CV não basta. Você precisa de um portfólio online — um lugar para reunir suas conquistas e marcos.”
Em 2026, se você não é encontrado online, para muitos recrutadores você simplesmente não existe. Não é justo, mas é a realidade.
Problema 3: tudo gerado por IA
Há um detalhe que muitos ignoram: usar IA para revisar gramática (como eu faço, não sou nativo em inglês) é ok.
Mas seu CV e portfólio precisam respirar você. Você é a marca, o sujeito. Se tudo soa como ChatGPT, você perdeu o que o torna memorável.
Componentes essenciais de um portfólio odontológico
Baseado no que realmente impressiona (e no que construí), seu portfólio precisa de:
1. Documentação de casos clínicos
Isso é inegociável. Fotos de antes/depois de alta qualidade, racional de planejamento e acompanhamento.

Levo 900 slides de casos em minhas apresentações. Não é exibicionismo — são 10+ anos documentando todo caso relevante. Consistência é a chave.
2. Setup de fotografia odontológica
É seu primeiro grande investimento pós-formatura. Sim, é caro. Mas sem imagens de qualidade você não constrói reputação. Ponto.
Minha sugestão de kit completo:
Corpo: Canon EOS R6 Mark II entrega resolução e autofocus para documentação clínica.
Lente macro: Canon RF 100mm f/2.8L Macro é padrão-ouro para fotografia intraoral.
Flash anelar: Canon MR-14EX II garante luz uniforme, sem sombras, essencial para fidelidade clínica.
Acessórios: Não esqueça espelhos e retratores — sem boa retração de tecido mole, nem a melhor câmera salva a foto.
Para um guia completo de equipamentos, veja meu artigo detalhado no Periospot: setup fotográfico essencial.
3. Conteúdo educativo e publicações
Ebooks, artigos, vídeos — mostram que você sabe sintetizar e comunicar conhecimento. Meus ebooks deram trabalho enorme (pesquisa, ilustrações, animações), mas nada me posicionou melhor.
Se você não desenha e quer ilustrações, criei o Periospot Studio justamente para isso — ilustrações e apresentações odontológicas geradas por IA para clínicos.
4. Sua “casa” digital

Você precisa de um URL onde tudo vive. Opções:
- Framer (uso em franciscodds.framer.ai) — lindo, no-code, profissional
- Notion — ótimo para portfólios com muito conteúdo
- Site próprio — máximo controle, mais esforço
Seu portfólio deve incluir:
- Foto profissional
- Bio e credenciais
- Melhores casos (3-5 excelentes valem mais que 20 medianos)
- Publicações/ebooks
- Palestras
- Stack/competências (importante para roles na indústria)
- Contato
5. Presença profissional ativa
Portfólio não é só site estático. Inclui:
- Perfil LinkedIn (otimizado, não abandonado)
- Contribuições em discussões profissionais
- Apresentações em eventos
- Interações e recomendações de pares
O fator mentor

Quando comecei com fotografia odontológica, tive a sorte de ter o professor de ortodontia Nuno Gustavo, em Barcelona, me orientando na escolha do primeiro kit. Evitei erros caros e ganhei anos de aprendizado.
Encontre seu Nuno. Identifique alguém que você admira, aproxime-se e peça orientação. A maioria dos profissionais bem-sucedidos quer ajudar — lembram de quando estavam no seu lugar.
“Encontre quem é referência para você, aproxime-se e comece a se conectar. Essas pessoas geralmente estão dispostas a ajudar.”
A dura verdade sobre atalhos
Não há atalhos para um portfólio convincente. Nenhum.
Você precisa desenvolver duas coisas em paralelo:
1. Excelência clínica: Vá ao consultório, trate pacientes, enfrente casos complexos. Expanda seus limites.
2. Aprendizado contínuo: Em vez de Netflix, leia Journal of Clinical Periodontology ou Clinical Oral Implants Research. Veja o que a literatura diz sobre o que você faz todo dia.
Um achado instigante: Pommer et al. (2016) fizeram um Delphi com implantodontistas de sociedades austríaca, alemã e suíça. Mesmo diante de metanálises de nível I, uma parcela significativa não mudou suas decisões clínicas.
Por quê? Por causa da frase mais perigosa da odontologia: “Eu faço assim e funciona para mim.”
Não seja essa pessoa. Deixe a evidência guiar sua prática e deixe seu portfólio refletir seu compromisso com a excelência.
Seu primeiro passo (faça hoje)
Se você é estudante ou está no início da carreira, faça hoje:
- Comece a documentar. No próximo caso interessante, fotografe direito. Descreva o que fez e por quê. Mesmo que ninguém veja agora, você está criando material bruto.
- Crie/atualize seu LinkedIn. Não deixe parado.
- Registre um domínio com seu nome. Não precisa subir site hoje, mas garanta seu espaço digital.
- Ache um mentor. Envie uma mensagem. O pior que pode acontecer é não receber resposta.
O portfólio que você construir na próxima década vai determinar quais portas se abrem (ou ficam fechadas) pelo resto da carreira. Comece já.
Leituras recomendadas
Para aprofundar em branding pessoal e posicionamento profissional:
📚 Building a StoryBrand, de Donald Miller — Entenda como se posicionar como guia na sua narrativa de carreira.
📚 Essentials of Dental Photography — Base técnica da documentação clínica.
Pensamento final
Um sistema de implantes é como um namorado: se você não o conhece bem, pode te dar muita dor de cabeça.
Com o portfólio é igual. Se você não investe tempo para entender o que está construindo — sua marca, sua história, sua excelência documentada — ele não vai trabalhar a seu favor quando você mais precisar.
Comece hoje. Documente tudo. Deixe o tempo fazer o efeito dos juros compostos. E lembre: você não está só montando um portfólio, está construindo uma carreira.
Qual sua experiência montando um portfólio profissional? Tem dúvidas para começar? Deixe um comentário ou fale comigo — vou adorar saber.
Bibliografia
Pommer, B., Becker, K., Arnhart, C., Fabian, F., Rathe, F., & Stigler, R. G. (2016). How meta-analytic evidence impacts clinical decision making in oral implantology: a Delphi opinion poll. Clinical Oral Implants Research, 27(3), 282-287. https://doi.org/10.1111/clr.12528
Tarnow, D. P., Cho, S. C., & Wallace, S. S. (2000). The effect of inter-implant distance on the height of inter-implant bone crest. Journal of Periodontology, 71(4), 546-549.
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